segunda-feira, 3 de abril de 2017

[10024] - A BRINCAR!...

Cabo Verde toca à campainha. “O Reino Unido saiu? Nós entramos”

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Ao som de Césaria Évora, o primeiro-ministro de Cabo Verde foi chamado a falar num evento do Congresso do PPE, na inciativa EPP Talks, em La Valeta, Malta. “Quem mostra bo es caminho longe?”, ouvia-se nas colunas enquanto Ulisses Correia e Silva se acomodava para falar. Em tom de brincadeira, conquistava pouco depois a sala repleta de europeístas: “Sei que é um dia triste para a Europa, porque o Reino Unido saiu, mas não seja por isso, nós entramos. Estamos in.” Cabo Verde é um país africano e por isso houve sorrisos por toda a sala, mas nem tudo é brincadeira: em breve, até euros vão poder circular em Cabo Verde.
Ulisses Correia e Silva falou em português, já que, com humildade, reconhecia não ter o suficiente domínio do Inglês para se exprimir da forma que queria. Humildade redobrada: foi o ministro dos Negócios Estrangeiros, Luis Filipe Tavares, que foi fazendo a tradução, num tom profissional. Antes disso, Ulisses Correia e Silva ainda falou um pouco em inglês, mais uma vez captando a atenção da assistência, lembrando que dizem que todos os cabo-verdianos tocam um instrumento. It’s true. I play guitar. Luís [apontando para o ministro] play’s doors bells“. (“É verdade. Eu toco guitarra, o Luís toca às campainhas”).
Falando mais a sério, já fora da conferência, o primeiro-ministro de Cabo Verde lembra ao Observador que o país tem “há já algum tempo uma boa parceria com a União Europeia, construindo várias pontes“. E explica: “Começámos em 1998 com o PEC fixo do escudo em relação ao Euro, reconhecido pelo Ecofin, reduzimos ou eliminámos os riscos cambiais de transações com a Europa. Vamos implementar um programa de supressão de vistos para cidadãos da União Europeia. E temos um projeto de circulação do euro na economia cabo-verdiana. Vai-se suprimir assim mais uma barreira que é a da circulação monetária.”
Ulisses Correia e Silva diz, assim, que está “pronto para o in: é evidentemente que não somos um país europeu, e reconhecemos isso, mas as relações entre Cabo Verde e a União Europeia podem ir até onde for possível ir. Relativamente, não só a esta integração de espaços, mas Cabo Verde ter uma utilidade também dentro da região africana em que se insere, quer no domínio da estabilidade, da segurança, da promoção de valores comuns. Portanto, podemos ser úteis nesta ponte entre a Europa e África.”
Ulisses Correia e Silva falou ainda sobre a ida do Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa ao país, entre 8 e 12 de abril: “Cabo Verde vai receber um grande amigo, que não é de hoje, que já foi a Cabo Verde várias vezes. Que tem relações muito estreitas. Vai ser um grande momento também da diplomacia e do estreitamento das relações ao mais alto nível, através do Presidente da República”.
O primeiro-ministro de Cabo Verde explicou ainda que o facto de ser presidente do MpD (Movimento para a Democracia), que é o partido homólogo do PSD naquele país, não afeta as relações com o atual Governo socialista de António Costa. Ulisses Correia e Silva destaca que “as relações são de Estado entre os Governos. O PSD e o CDS fazem parte da nossa família política, o PS tem também a sua família política. Temos boas relações institucionais, quer com o PSD, quer com o PS.Tranquilo. Nós fazemos a democracia funcionar quer do lado de Cabo Verde, quer do lado de Portugal.”
Texto de Rui Pedro Antunes 
in O OBSERVADOR

terça-feira, 28 de março de 2017

[10023] - CENTENÁRIO

A NOTÍCIA QUE ZITO AZEVEDO FARIA QUESTÃO DE DAR!
Comemora-se este ano o Centenário da criação, em S. Vicente, do Liceu Nacional de Cabo Verde, inaugurado a 19 de Novembro de 1917.
Com a fundação do Liceu em Mindelo, iniciou-se uma importante etapa do desenvolvimento cultural, não só da ilha como também de toda a colónia, com impacto decisivo na consciencialização identitária e na transformação da sociedade cabo-verdiana.
A criação do Liceu deveu-se em grande parte à luta desenvolvida pelas elites cabo-verdianas imbuídas dos novos ideais republicanos e progressistas do início do século XX no sentido de elevar o nível cultural do povo. Ela representou uma conquista importante para os que, conscientes da exiguidade dos recursos naturais para assegurar a sobrevivência das populações, como atestavam as terríveis fomes que ciclicamente dizimavam a população, viam na valorização do homem cabo-verdiano a melhor aposta para enfrentar as adversidades da Natureza e da História.
Nessa luta destacaram-se figuras ilustres da história cabo-verdiana, designadamente Eugénio Tavares, Pedro Cardoso, Luís Loff Vasconcelos e Augusto Vera-Cruz. Este último, enquanto senador eleito para representar a Colónia em Lisboa, foi sem dúvida quem mais pugnou para que se abrisse uma escola secundária em Cabo Verde. Não só os seus esforços culminaram com a decisão de se criar o Liceu Nacional em S. Vicente em 1917, como cedeu a sua própria residência – o actual Centro Nacional de Artesanato - para nele funcionar esse estabelecimento de ensino.
A história do Liceu em S. Vicente não é apenas a de um mero estabelecimento de ensino secundário. Tendo sido, desde a sua fundação até 1960, o único liceu existente em Cabo Verde, a sua existência explica, em grande parte, a notável actividade cultural que caracteriza a vida da cidade do Mindelo, assim como o ambiente propício ao nascimento e intercâmbio de novas ideias com vista ao desenvolvimento social.
Inicialmente denominado Infante D. Henrique, depois, Gil Eanes, e, a partir de 1975, Ludgero Lima, o Liceu abriu caminho a uma intensa actividade intelectual espelhada não só no surgimento de movimentos literários protagonizados por personalidades que de uma maneira ou de outra se encontravam ligadas a esse estabelecimento de ensino, como também por variada actividade cultural, desportiva e cívica envolvendo professores e estudantes dessa instituição de ensino.
Várias iniciativas e acontecimentos com origem no liceu tiveram repercussão importante na vida nacional. Pelo Liceu, com as suas diferentes denominações, transitaram gerações de cabo-verdianos que moldaram a configuração do Cabo Verde de hoje, seja a geração dos claridosos, seja a geração que abraçou e promoveu o ideário da independência nacional ou, mais recentemente, a dos jovens estudantes da primeira metade da década de 70, que contribuíram de maneira decisiva para o triunfo do ideal independentista e a consolidação do jovem Estado de Cabo Verde.
Para assinalar o centenário do Liceu de São Vicente e lembrar o legado que a sua existência representa para a Nação cabo-verdiana, um grupo de antigos alunos decidiu organizar um programa de celebrações que pretende incluir um colóquio internacional, exposições, entrevistas e programas radiofónicos e televisivos, assim como estimular actividades diversas (culturais e desportivas) nos estabelecimentos de ensino secundário e universitário que hoje continuam o esforço iniciado em 1917 no sentido da valorização integral da mulher e do homem cabo-verdianos.
Brevemente será apresentado o programa definitivo das comemorações para as quais desde já solicitamos os necessários apoios e a colaboração das entidades oficiais, privadas, estabelecimentos de ensino secundário de São Vicente, actuais e ex-alunos e professores e da sociedade civil mindelense em geral.
A Comissão Organizadora

quarta-feira, 15 de março de 2017

[10022] - CABO VERDE 1977


SOB A BATUTA DO PAIGC

Em breve iniciarei esta crónica, que estava há algumas semanas a burilar com o meu "velho", quando fomos subitamente interrompidos.

Apesar de, infelizmente, não termos tido todo o tempo que desejávamos, e que pensávamos dispor, ficaram registadas para a posteridade partes de uma história que necessitava há muito, e no mínimo, de um contraditório.

Esta será a versão, na primeira pessoa (e não só!), da história que envolveu a inacreditável expulsão de Zito Azevedo, da terra que sempre amou ... Cabo Verde!

Braça,

Paulo Azevedo

segunda-feira, 13 de março de 2017

[10021] CAMBRA DE SONCENT

Carta aberta a Senhor Presidente de CAMBRA DE SONCENT.

Por: Arlindo Tchoff Miranda

Senhor presidente Gust antes de mas nada i embora mi n´ê religioso um ta dsejá que Nossa Senhora da Luz ta lumnhá bocê camim. N´ê precise bocê fcá preocupod porque au contrar de Electra ela ca ta cortá luz nem cobrá taxa de religação. 
Na bocê primer mandat, quer dzer quel lá era de Zau i bocê otchal na tchom i durante segundo quase tud dia i tud ora bocê tava businá gent na uvid que Soncent tava infront purque guvern central de José Maria Neves tava ta sufocá ess ilha i sis habitant. One passod bocê cabá de ganhá ileição primer cosa que sai de bocê boca ê que agora era diferente purque CAMBRA ma guvern tava ta bem fazê parceria i SONCENT tava ta bai pa se lugar quel ta merecê. Como ca pudia tchá de ser quase tud gent fcá naquel xpetativa: JÁ PSÚ Ê AGORA QUE SONCENT TA BAI PA FRENT purque pa primera vez ess ilha tava ta bem tem um guvern local de mesm côr piulitca que guvern central. 
Acontece que pa xpont de maioria de gent dess ilha qrida senhor president de CA;MBRA vrá um moreia, ô seja el infiá num broq i quase ninguém ca ta oila nem uvil. Li bem um ministra que dzê que Cab Verd n´era sô Soncent i que ess ilha tava ta mextê um travão purque el tava cum dsenvolviment mut solerrod (SONCENT Ê SAB SAB PA CAGÁ). Na altura um tchegá te pensá que tinha sid um lapse labial dess ministra ma afinal era prop o que tava ta bai na alma de guvern central,(5º lugar na distribuissão de bolo estatal) i bocê continuá remitid na um ensurdecedor silêncio. Go turdia na TEVEC un uvi bocê ta falá daquel prublema de esgoto na Lazareto i cond bocê levantá voz contra guvern anterior por cosa dess prublema um dzê boa, nô ca ta na Páscoa ma Gust já ressuscitá. Ma como ca pudia ser diferent um tive que tchegá a conclusão que era só ferva de lata, falá mal de guvern anterior ê fácil agora infrentá ess atual ê cumplicod i podê te dá prucess disciplinar a nível de partido nera senhor presidente de CAMBRA? 
Pa carnaval senhor ministro exterminador de cultura injetá um dnhirim pa jdá grupos de Soncent ma quase es pensá que li no ta vivê ê sô de carnaval ma festival embora um ministro de bzôt na idos anos 90 i na qualidade de conhecedor nato de soncent tinha dzid que cultura de Soncent tava resumi a grog i pex frit.
Agora na tchtribuissom dess bolo quê orçamento geral de xtod SONCENT fcá na quinto lugar (cuitod el ca pude nem apurá pa play-off de liga europa, el ta pior du que nhe Sporting). 
Senhor Presidente de CAMBRA DE SONCENT, não foi ninhum partido pulitq que votá na bocê pa guverná Soncent, Foi maioria de eleitores dess ilha qrida i bnita que dá bocê ess puder portant ta na ora de bocê sai de broq i moda nôs tud na qualidad de herder de CAPITÃO AMBRÓZIO bocê tmá diantera de luta que nô tem que bem travá ma guvern central (atual i vindouro) purque cosa ti ta bem vrá fei fei fei... Se bocê trá polpa daquel cadera lá na CAMBRA i bocê sai pa rua (nada de rua de lisboa i praça nova), se bai pa fralda i comp) se ta podê constatá col quel tristeza i dsilusão que ti ta bai na alma dess povo. Se ca for fet nada urgentement perceme que loreta ta bem sentá pel i tcheu gent ti ta bem bem sofré i se cuidod que julgament de povo ê lixod imbarda purque justiça de pov ê mas ceg du que justiça de tribunal.
VIVA SONCENT, VIVA CAPITÃO AMBRÓZIO, VIVA CAB VERDE.

(Esperando que o amigo Arlindo Tchoff Miranda, não de importe com a partilha desta deliciosa sátira)

domingo, 12 de março de 2017

[10020] - E TUDO COMEÇOU NA DJABRABA!

ILHA BRAVA, AO FUNDO A MAJESTOSA ILHA DO FOGO (foto wikipedia)

De terras de Vera Cruz, a colaboradora e amiga do AcA Nouredini, enviou este belíssimo texto, que muito agradecemos e partilhamos convosco...


"Quando pensamos que o brava significa "valente ou destemida" vemos o quão apropriado é o nome dado a Ilha de Brava. Sua história e estórias não fogem a esta qualificação. Somadas as questões de bravura, a ilha carrega um significado de história de amor duradora e valente.
Como não existem acasos nesta vida, foi em Brava que Zito encontrou sua Maiúca, sua companheira amada, mãe dos seus filhos, que com ele dividiu alegrias, tristezas e responsabilidades, principalmente nos duros e injustos momentos vividos em Cabo Verde.
Um amor assim duradouro resistiu a percalços econômicos, políticos e de saúde. O princípio sempre foi o de quem estava bem, cuidava do outro até o final. Também há que se contabilizar as muitas alegrias compartilhadas, os sorrisos dos filhos e a chegada de netos. Não os conheço de perto em sua intimidade, mas a julgar pelo bom humor que Zito sempre demonstrou, suponho e até garanto, que se devia a vida harmoniosa ao lado de sua amada.
Em 2013 escrevi que só os felizes de verdade comemoram as bodas intermediárias. Salvo estes, os demais comemoram por pura formalidade e preferem as datas conhecidas e consagradas dos 25 e 50 anos de casados. As datas quebradas são invariavelmente esquecidas ou guardadas como uma poupança para uma festa maior, num disfarce de que não se está feliz de todo. Naquela oportunidade, eles completavam 56 anos de casados e 60 juntos.
Pergunto-me o que é maior senão o dia-a-dia? O que é maior que a vontade de casar, ao ponto de casar-se por procuração? O que é maior do que dizer sim e ao final da cerimônia não beijar o marido? Eles teceram com bravura por mais de 60 anos este amor e ainda encontravam riscos, pontos e bordados com o mesmo encanto do seu enxoval e renovava os votos nos bons e charmosos almoços de domingo a dois.
A vida para eles sempre foi simples como o amor verdadeiro: -  ela a Maiúca de Zito e ele o Zito de Maiúca, não importando por quanto tempo.
O amor é eterno e sempre estarão juntos e firmes como a ilha de Brava que só floresceu e frutificou e marcou gerações com sua história.
Votos de harmonia."

Heide Oliveira – Nouredini


“ Avida só está disponível no momento presente”  -- Budha 

sexta-feira, 10 de março de 2017

[10019] - RECORTES

Algures perdido numa gaveta, a minha irmã Paula encontrou este pedacinho de papel, com um lamento na forma de uma singela e sentida quadra, de autoria de meu pai e datada de 17 de Outubro de 2003...

Partilhamos convosco!



(COLABORAÇÃO PAULA AZEVEDO)

quarta-feira, 8 de março de 2017

[10018] - A REGIONALIZAÇÃO

Arsénio Pina
CARTA ABERTA AO GRUPO DE REFLEXÃO PARA A REGIONALIZAÇÃO

                Face à relativa passividade do Grupo de Reflexão para a Regionalização de Cabo Verde e sua tendência em defender, ou não criticar abertamente e com independência, as hesitações partidárias, sendo uma organização apartidária, permito-me tentar esclarecer alguns pontos e sugerir abordagens que presumo de interesse para o Grupo, cujos elementos conheço por ter participado de reuniões aquando das minhas deslocações a S. Vicente, a fim de o Grupo poder ser mais acutilante e produtivo. Começarei por aspectos gerais antes de abordar questões particulares.
Antigamente, os intelectuais eram chamados letrados, termo mais neutro, que não irrita tanto aqueles que fazem pouco uso da inteligência, da razão. É evidente que as pessoas, quanto mais lêem, mais problemas levantam, podendo tornar-se incómodas, sobretudo para o Poder. Este, quando pouco ou nada democrático, considera a necessidade de informação correcta e detalhada exigida pelos cidadãos, ou por militantes no caso de partidos políticos carregados de dogmas, “mórbida curiosidade de intelectual burguês”. Em relação a certos partidos políticos – tivemos experiências disso – a liberdade é antiliberdade porque não inclui senão a liberdade de concordar. Insistir nos problemas por solucionar, voltar às dúvidas por esclarecer, é um desrespeito do individualismo. É bom de ver que isso é típico de Estado centralizador, vertical, dominador e absoluto que não o põe ao alcance e à altura dos cidadãos, uma modalidade de poder político e de Estado inteiramente oposta à democrática, típica de partidos com uma concepção antidemocrática e vanguardista do poder, quando o Estado deve ser pertença de cada cidadão.
É evidente que quem lê – é pena haver cada vez menos gente a ler, preferindo a net e a TV, que não substituem livros – encontra, sem querer, ou busca, deliberadamente, informação verdadeira, satisfatória ou completa. Sem informação capaz de permitir a cada um assumir uma posição, formular um juízo seu com suficiente conhecimento de causa, tudo o mais será minado pela raiz e condenado ao insucesso, como bem escreveu um contemporâneo dos tempos de Coimbra (J.A. Silva Marques). Sem informação verdadeira e completa não pode haver participação esclarecida, que algumas vezes nos pedem, hipocritamente, os governos, para levar à discussão, o motor das ideias susceptíveis de nos conduzir ao progresso, ultrapassando os egoísmos pessoais e partidários.
Creio que os amigos do Grupo entendem e sentem o que venho escrevendo por terem vivido, como eu, duas situações de limitação drástica de liberdade e de deturpação da informação, a colonial, com o fascismo, e o início da independência, devido ao sistema de partido único. A época do MpD iniciou-se com eliminação dessas limitações e teria demorado muito mais tempo se não tivesse cometido erros perfeitamente evitáveis descritos noutra ocasião.
Foi Gramsci quem afirmou, “só a verdade é revolucionária” (em tempos escrevi, erradamente, que tinha sido Lenine a dizer tal), mas, como esclareceu o comunista português do Comité Central do PCP, Carlos Brito, “tudo depende. A verdade só é revolucionária se for a verdade do nosso Partido, porque essa é que é a verdade”. Como se pode constatar, os comunistas que seguiam, e ainda seguem, a linha estalinista (actualmente, talvez somente o português) atêem-se a dogmas. Rosa Luxemburgo, judia polaca, a única marxista que fez frente a posições de Lenine, teria afirmado: “A liberdade apenas para os partidários do governo, apenas para os membros dum partido – por mais volumosos que sejam estes – não é liberdade. A liberdade é sempre, pelo menos, a liberdade daquele que pensa de modo diferente”. Claro que para os comunistas ortodoxos e os dirigentes de partidos únicos, essa liberdade é idolatria pequeno-burguesa dos valores burgueses da democracia. Como afirmaram Bernard-Henri Lévy e Mário Vargas Losa, não existem ditaduras de esquerda e de direita, existe tão-simplesmente o horror da tirania.
O capitalismo, face ao comunismo, para sobreviver, teve de evoluir para a social-democracia, que comporta o social e o colectivo, sem castrar o indivíduo, mas o comunismo, que podia ter-se contentado – “regredido”, na opinião dos comunistas – com o socialismo de rostro humano, não o fez por ser uma religião respeitadora dos seus dogmas, verdades últimas dos livros sagrados, que não podem ser alterados nem adaptados ou modernizados às novas condições do mundo, o que levou à sua implosão na URSS, desmistificando a bela canção interpretada por Gilbert Becaud, Natalie: “Aprés le tombeau de Lenine/on irait ao Café Pouchkine/ boire un chocolat …”, que confortou tantos militantes comunistas e simpatizantes.
Não se depreenda destas linhas que pretendo identificar o PAIGC/CV com um partido comunista totalitário, mas que se inspirou no marxismo-leninismo, não restam dúvidas, limitado um pouco pela tradição civilista, democrática e de associativismo social, mesmo incipiente, do cabo-verdiano, adquirida através da emigração, contacto com outros povos no exterior, no Porto Grande de S. Vicente e ilustrado pelo Seminário-liceu de S. Nicolau, o Liceu Gil Eanes e o de Adriano Moreira, realidades graças a mecenas nacionais, respectivamente o Dr. Júlio Dias, Senador Vera Cruz e o ex-ministro português Professor Adriano Moreira, que cederam, os dois primeiros, as suas residências para alojar esses benefícios para o país. O PAIGC/CV, infelizmente, utilizou uma linguagem monocórdica, categórica de infalibilidade semelhante à papal, discussão hermética ao nível dos quadros superiores do Partido sem ir ao tutano dos problemas e sem aceitar as sugestões e propostas dos que não eram militantes, mesmo sendo simpatizantes. Sendo o partido único moda na época da implantação da independência, foi aceite com poucas resistências e serviu bem, como afirmou alguém, para arrumar a casa e evitar a confusão política que reinou em Portugal, tendo, no entanto, durado tempo demasiado como partido único, de pensamento único, quando, em verdade, o Estado é dos cidadãos da República, não propriedade privada dos partidos políticos.
Do Estado-providência, que obteve vitórias significativas inegáveis a nível da saúde, educação e desenvolvimento socio-económico, passou-se, sem transição nem cautelas recomendadas pelo bom senso, para a economia de mercado e globalização sem regulação financeira nem económica, instituídas pelo neoliberalismo, o que levou ao enfraquecimento do Estado-nação, o qual perdeu o controlo da economia permitindo a vadiagem do capital e a imposição de instituições que tentam orientar a economia (FMI, OMC, etc.) com confiscação parcial da política pelos peritos mundiais do neoliberalismo, política que deixou de controlar a economia e finanças e deu, como resultado, o que sabemos – uma crise económica e financeira de todo o tamanho - e ainda vivemos.
Referi-me à vossa relativa passividade, acrescento fé, na promessa do novo Governo em implantar a descentralização e regionalização, o que não é recomendável, por a fé ser admissível em religião, onde se admitem milagres, não em política. Não há que baixar a guarda. Todas as cautelas são poucas, dado que, geralmente, à mínima distracção passam-nos (os do Governo) rasteiras. Há que ser vigilantes, porque, por exemplo, relativamente à educação universitária, mormente na privada, constatamos que estão a formar licenciados para profissões inexistentes, ou que já não existem no país. Afinal - noutro aspecto - somos nós que damos cabo do património nacional pela cupidez dos promotores que quiseram construir no local de implantação de um património nacional um hotel ou um casino, como se fosse em plena Ribeira de Julião, Achada de S. Filipe ou em Campanas de Baixo, como se houvesse um apuro especial estético e de bom senso dos arquitetos. Digo nós, porque deixámos que aqueles que têm o dever legal de preservar a memória e integridade da cidade, os decisores, fizessem - e continuam a fazer - essas asnidades criminosas sem nos opormos, utilizando manifestações de rua de protesto, ou mesmo a força como último recurso.
A alternativa a esse estado de coisas, pelo menos para nós, cabo-verdianos, ainda vítimas do centralismo, é uma evolução decididamente descentralizadora, simultaneamente atenta à solidariedade entre as diferentes ilhas. As regiões, pela estratégia defendida pela regionalização, beneficiando da transferência de competências importantes, iriam impondo-se como instituição chefe-de-fila entre outras colectividades. O Estado, garante da unidade da República em cada uma das novas regiões, terá representação em cada uma das regiões, com a finalidade da regulação e controlo efectivo das políticas de desenvolvimento, de execução das competências delegadas e de normalização na aplicação das normas judiciais do Estado. Os falsos democratas e verdadeiros demagogos que invocaram, ou invocam o sufrágio da rua sem discussão prévia e manipularam, ou podem vir a manipular habilmente a opinião pública para servir as suas ambições pessoais e partidárias, preferem manter-se no centralismo, escorados na burocracia excelentíssima para se pouparem a esforços e ao debate, em vez de criar a proximidade entre os serviços do Estado e dos cidadãos seus utentes.
É óbvio que este processo de descentralização e regionalização será longo, por ser um conjunto de compromissos e de adaptação entre o Estado - uma entidade integradora em nome de um interesse comum – e as regiões. Se houver coragem e rasgo da parte do actual Governo, será uma oportunidade única do MpD para colocar nas mãos do povo uma decisão histórica – que o PAICV não quis colocar -, ganhando assim uma imprescindível autoridade democrática para inverter o rumo para o abismo em que estamos em vias de nos precipitarmos.
Lançada esta semente à terra, que é fértil por ser de gente letrada e conhecedora da realidade do país, espero que germine e frutifique.

Parede, Março de 2017                                                                     Arsénio Fermino de Pina

                                                                                                     

terça-feira, 7 de março de 2017

[10017] - A DESCOBERTA DA MORABEZA

Aversão   / Adoração

É mais fácil de escrever, soletrar e sentir. Três sílabas de indisposição, ódio, azedume, raiva, o que quer que seja. Aversão!...
Sem recorrer a qualquer tipo de estudo certificado, posso afiançar que este vocábulo do demo está muito mais presente nas nossas vidas do que a sua vizinha do outro lado da barra. Mefisto é “barra pesada”,  como dirão os amigos do outro lado do oceano, e tudo o que lhe está associado conduz a “palavras primas” de Aver_ _ _!
Mas Aver___ conduz a sensações positivas, bem como “são” !
Analepse. Aversão! Eu tinha aversão a Cabo Verde como possível destino de férias! Ui, o que eu acabei de proferir neste blog da terra árida de caras fechadas!
Atenção ao tempo do verbo “ter” e à inexistência de vírgula entre o adjectivo “árida” e o complemento!
2009 foi o ano da mudança, em que a Aversão se “basaltificou”, e fiquei  “a ver” a Adoração fluir. E que fruição foi! Foi, não, ainda é!... São assim os sentimentos duradouros.
Por obra de Deus, Palma de Maiorca deixou de ser opção de férias (“bendito” vírus H1N1! Salvo erro,  era esta a variante que afectava Palma na altura) e eis que surge a alternativa … CV (Coração Vivo)!
POIS, SAÍ DE LÁ, que ainda é cá (sinto cá dentro!), COM O CORAÇÃO VIVO!
Saí de lá sem aridez de sentimentos, que levei comigo, teimando que voltariam. Os sorrisos de nada, contra as minhas trombas de tudo, levantaram a minha “poeira”, pior que quando vento sopra no vulcão do Fogo…         
Queimava-me com a minha indiferença, a minha aversão ao ser descalço que me olhava de cara aberta.
Saí de lá também descalço e sem camisa, coisa que não fazia desde … sei lá … talvez desde o princípio do meu pequeno mundo!...
Saí de lá aberto à Adoração, como se oração fosse,
De um Deus que tudo me deu,
E que à sorte, a outros, apenas permitiu dizer adeus!
Sensações positivas de gente sem nada,
Que, contudo, tudo fizeram para que me sentisse com Tudo.

Para mim, era o Cabo do Medo,
Do receio de sair à rua no primeiro dia,
Lembrando a pobreza de Angola,
Reminiscências de estrondos de bomba,
Em cabeça de criança assustada no adulto frustado.

Saí de lá, para voltar a entrar, qualquer dia, novo.
A lavagem foi mérito deles.
Eu só fui!...

+1 Braça do Angolano António Rebelo

(agora do lado bom da barra! J ) 

(COLABORAÇÃO ANTÓNIO REBELO)

segunda-feira, 6 de março de 2017

[10016] - PAICV

“Em vez de sarar as feridas, o XV Congresso do PAICV intensificou, ainda mais, as desavenças internas que vem minando a vida do maior partido da oposição. Os apelos à união e à coesão não passaram de discursos. Os membros do Grupo de Reflexão ficaram de fora dos órgãos e por explicar restam os reais motivos da saída de José Veiga da vice-presidência do partido.”


in A Nação nº495

Lá como cá, parece sobreviver uma oposição presa por cordéis e igualmente parca em ideias e projectos, mas sedenta de jogos palacianos.

Paulo Azevedo

sexta-feira, 3 de março de 2017

[10015] - POEIRA DOS TEMPOS


Esta fantástica foto da "nossa" Praça Nova, foi-nos gentilmente enviada pelo Artur Mendes. Segundo o próprio, está datada do "Tempo de Canecadinha!" (Eu cá sempre ouvi "Caniquinha", suponho que a esta expressão corresponda um horizonte temporal, mais recente ;))

Alguém quer avançar com uma data mais "específica"!!!

Braça

Paulo Azevedo

(COLABORAÇÃO ARTUR MENDES)

quinta-feira, 2 de março de 2017

[10014] - LAPIDAR

FRASES QUE CONQUISTARAM A IMORTALIDADE!
(COLABORAÇÃO TUTA AZEVEDO)

  
   "Estar vivo é o contrário de estar morto" - Lili Caneças

   "Inácio fechou os olhos e olhou para o céu!" - Nuno Luz (SIC)


    "A China é um país muito grande, habitado por muitos chineses..." -
 Charles de Gaulle

  "Quatro hectares de trigo foram queimados. Em princípio trata-se de incêndio." - Lídia Moreno - Rádio Voz de Arganil

  "O acidente foi no tristemente célebre Rectângulo das Bermudas.
 " Paulo Aguiar - TV Globo

 "O acidente fez um total de um morto e três desaparecidos. Teme-se que não haja vítimas." - Juliana Faria - TV Globo

  "Os antigos prisioneiros terão assim a alegria do reencontro para
 reviver os anos de sofrimento." - Maria do Céu Carmo - Psiquiatra

  "À chegada da polícia, o cadáver encontrava-se rigorosamente imóvel." -
 Ribeiro de Jesus - PSP de Faro

"Ela contraiu a doença em vida "- Dr. Joaquim Infante - Hospital de Santa Maria

"Esta nova terapia traz esperanças a todos aqueles que morrem de cancro
 em cada ano" - Dr. Alves Macedo - ONCOLOGIA

A MALTA DA BOLA...

"NÓS SOMOS HUMANOS COMO AS PESSOAS" - Nuno Gomes - SLBenfica

 "PROGNÓSTICOS, SÓ NO FIM DO JOGO" - João Pinto (FCPorto)

 "QUANDO O JOGO ESTÁ A MIL, MINHA NAFTALINA SOBE" - Jardel, ex-jogador do
 Sporting Clube Portugal

  "QUEREM FAZER DO BOAVISTA O BODE RESPIRATÓRIO" - Jaime Pacheco,
 treinador do Boavista FC

"SE ENTRA NA CHUVA é PARA SE QUEIMAR" - Denilson - Jogador da Selecção do Brasil

  "HAJA O QUE HAJAR, O PORTO VAI SER CAMPEÃO" - Deco, Ex-jogador do FC Porto

  "O DIFÍCIL, COMO VOCÊS SABEM, NÃO É FÁCIL" - Jardel (SC Portugal)

  "EU DISCONCORDO COM O QUE VOCÊS DISSE" - Derlei, do F. C. PORTO, em
 entrevista ao Jornal Record

  "EM PORTUGAL É QUE É BOM. LÁ, A GENTE RECEBE SEMANALMENTE DE 15 EM 15
 DIAS" - ARGEL, jogador do BENFICA

  "NEM QUE EU TIVESSE DOIS PULMÕES ALCANÇAVA ESSA BOLA" - Roger, jogador
 do Benfica emprestado a um clube brasileiro

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

[10013] - PESSOA



Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que quero…

Fernando Pessoa


(Colaboração Artur Mendes)

domingo, 26 de fevereiro de 2017

[10012] - VERBO OU INTERJEIÇÃO


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Há ou “Ah!”  ?Verbo ou interjeição?

Eu gosto do verbo!
Dá noção de Existência,  Vida, Amizade, Conforto, Beleza,  de Amor e outros alentos como tais.

Mas.... e o “Ah!” ? Não há igual! Para mim é o espanto que nos faz viver e não o vejam como lamento (segundo o dicionário também serve para exprimir tal. Risquem!).

Viver na exaltação dos que criaram e dos que criam!

Surpresa de um nascimento, de um braça inesperado, de uma lágrima sentida.

Olhar para um Almada, ler um Pessoa, ouvir um Chopin (um dia o Zito-pura verdade!- eu ainda puto, disse-me que se pronuncia "Cópin" e não como o comum dos mortais pronuncia. Um grande “Ah!” para mim! O homem era polaco e não francês. Nasceu na Polónia de um francês com ascendência polaca, mas era Polaco! Ah!) genera-nos espantos que nos tiram da apatia, inércia, ignorância e outros tormentos que tais.


Haverão “Ah!s” suficientes em cada um de nós? Olhemos para este blog, para os Amigos, para as nossas Crianças, para os nossos Ascendentes (presentes e AUSENTES) e veremos motivos para o espanto inebriante.

Aquele que vos escreve exterioriza o que o atormenta pela antítese. Se não conseguirmos melhor.... que nos "antitesemos"!

Braça de um angolano!


António Rebelo

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

[10011] - PROMESSAS



Certo dia, já ciente do seu estado de saúde, ou seja, num tempo não muito longínquo, o meu pai deixou no ar, que gostaria muito que eu prosseguisse um dia com este projeto do “ARROZCATUM”.

Embora seja um curioso da cozinha, sinto-me a léguas do Grand Chef, que dirigiu este espaço, com toda a mestria de um verdadeiro gourmet da palavra.

Com o seu imenso sentido democrático, foi expondo pontos de vista, factos, efemérides e pequenas e grandes histórias. A sua indisfarçável costela de comunicador estava plasmada na curiosidade que tinha sobre as diversas formas e tonalidades do maravilhoso mundo que nos rodeia.

Contou com a inestimável ajuda de uma mão cheia de leais e profícuos colaboradores. E assim, feitos espectadores atentos, fomos enriquecendo em conhecimento e cultura, embalados pelo tom, por vezes conciliador e outras vezes reprovador, mas sempre desempoeirado.

Estou a falar do meu pai, por isso devem perdoar a minha imparcialidade, mas todos devem concordar, que as crónicas sobre a sua palpitante passagem por Angola, estavam coloridas por pinceladas verdadeiramente geniais.

A forma como nos fez sorrir, chorar ou admirar o belo, são a marca do seu inconfundível estilo e verdadeiro exemplo de um comunicador antigo no BI, mas contemporâneo no formato.

Houve um condimento transversal a toda a história do “ARROZCATUM”, a sua grande e incondicional paixão pela terra que o acolheu, adoptou, mas que malogradamente e a destempo, dele se descartou…

Não posso prometer a mesma cadência e qualidade de informação, mas deixarei via aberta para todos os habituais colaboradores e também a todos que se queiram juntar a este espaço de reflexão. 

Estaremos, antes de mais, a honrar a memória de Zito Azevedo, não deixando morrer um dos seus legados…

Veremos o que dá!

Braça

Paulo Azevedo