segunda-feira, 19 de junho de 2017

[10029] - FINALMENTE A LUZ IV

Crimes que nunca prescrevem
... E NUNCA SE ESQUECEM* (nota pessoal)

Segundo a Convenção Contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes, adoptada por resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1984, e ratificada por Cabo Verde, em 1992, o termo “tortura” designa qualquer acto pelo qual uma violenta dor ou sofrimento, físico ou mental, é infligido intencionalmente a uma pessoa, com o fim de se obter dela, ou de uma terceira pessoa, informações ou confissão; de puni-la por um acto que ela, ou uma terceira pessoa, tenha cometido ou seja suspeita de ter cometido; de intimidar ou coagir a pessoa, ou uma terceira pessoa; ou por qualquer razão baseada em discriminação de qualquer espécie, quando tal dor ou sofrimento é imposto por um funcionário público ou por outra pessoa actuando no exercício de funções públicas, ou ainda por instigação dele ou com o seu consentimento ou aquiescência.
O regime de partido único foi uma máquina totalitária que controlou, vigiou, prendeu e torturou cidadãos cabo-verdianos. Quantas vítimas fez, não se sabe ao certo e é difícil contabilizar formas de coacção que apesar de não serem visíveis estavam lá.
Mas, como mostrou o Expresso das Ilhas numa reportagem que falou com intervenientes políticos e sociais de diversos quadrantes, em Cabo Verde as opiniões convergem num sentido. Não se justifica a criação de uma comissão da verdade para investigar os crimes do regime de partido único, até porque poderia provocar tensões sociais indesejadas.
Segundo o Artigo 13, da Convenção Contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes, “cada Estado Parte assegurará que qualquer pessoa que alegue ter sido submetida a tortura em qualquer território sob a sua jurisdição tenha o direito de apresentar queixa e de ter o seu caso rápida e imparcialmente examinado pelas autoridades competentes do dito Estado”.
Já no artigo 14, vem que “cada Estado Parte assegurará, no seu ordenamento jurídico, à vítima de um acto de tortura, direito a reparação e a uma indemnização justa e adequada, incluindo os meios necessários à sua mais completa reabilitação possível. No caso de morte da vítima, em consequência de tortura, os seus dependentes terão direito a uma indemnização”.
Em Cabo Verde, as vítimas da tortura terão direito a uma indemnização, uma vez que segundo as leis internacionais estes crimes não prescrevem? Elísio Freire, actual Ministro dos Assuntos Parlamentares e na altura da reportagem líder da bancada parlamentar democrata, disse então: “acho que as pessoas podem pedir as indemnizações se provarem que foram vítimas de tortura, por razões políticas e outras. O país precisa de se reencontrar com a sua história, mas sempre num quadro de tranquilidade e de pouca crispação social”.
(Principais fontes: A Tortura em Nome do Partido Único, de Onésimo Silveira; O Partido Único em Cabo Verde: Um Assalto à Esperança, de Humberto Cardoso; Aristides Pereira, Minha Vida, Nossa História, de José Vicente Lopes; Dossier sobre o 27 de Maio de 77, do site esquerda.net; edições do Expresso das Ilhas).
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 809 de 31 de Maio de 2017. 

sexta-feira, 16 de junho de 2017

[10028] - FINALMENTE A LUZ III

Os pseudo-burgueses e os pseudo-intelectuais

Os acontecimentos de 1977, desencadeados com a inverosímil justificação de prevenção de actos terroristas, tiveram como objectivo principal a intimidação de uma comunidade, que teve um papel decisivo no processo de independência e que é conhecida pela sua autonomia de opiniões e capacidade de influenciação do país.
No dia 8 de Junho, quatro dias depois das prisões, chega a Cabo Verde, Constantino Teixeira, Comissário de Estado de Segurança da Guiné Bissau. Em declarações à imprensa, diz que “filhos renegados da nossa terra têm urdido campanhas contra os nossos países através de panfletos subversivos”. Acrescenta que “no Mindelo e na cidade de Bissau foram detectados panfletos lançados por ex-informadores da PIDE ligados a traidores no estrangeiro” e que “essas tentativas de anti-africanos não parecem estar desligadas da estratégia geral do imperialismo para a desestabilização dos Estados progressistas africanos...”.
Uma nota de imprensa da Direcção Nacional de Segurança justifica as prisões da seguinte forma:
“Depois de confirmar a existência nas áreas de São Vicente e Porto Novo de contra-revolucionários, incluindo antigos informadores da PIDE-DGS, que mantêm estreitas relações com elementos anti-nacionais radicados no estrangeiro, a Direcção Nacional de Segurança e Ordem Pública, ordenou ao Agrupamento daquela  área a proceder ao desmantelamento do referido grupo. Das primeiras averiguações apurou-se que:
1 - Efectivamente todas as pessoas até ao momento detidas estão ligadas àquele grupo;
2 - O objectivo principal a que se propunham era a criação de um clima de insegurança interna e desprestígio do Governo no plano externo a fim de criar as condições propícias a uma intervenção do exterior, que tentaria destruir o actual regime político e travar o processo de transformação social em curso;
3 - Para levarem a cabo seu intento, tencionavam:
4 - Mobilizar a população através de panfletos de conteúdo calunioso e demagógico, que já  tinham começado a espalhar nas  áreas atrás mencionadas, e particularmente, nas frentes de trabalho em S.Vicente;
5 - instaurar um clima de instabilidade, para o que já tinham plano e material para a sabotagem de alguns pontos sensíveis, tais como a JAIDA, a Central Eléctrica, as Instalações de Telecomunicações, os quartéis, a Rádio Voz de S.Vicente, vias de comunicação em S.Antão, ao mesmo tempo que procederiam à liquidação física de alguns responsáveis do Partido e do Governo.
Neste momento prosseguem as averiguações com vista ao apuramento das responsabilidades. Mais se informa que, um dos detidos, furtando-se à vigilância dos guardas, evadiu-se e, ao ser localizado, saltou do terraço onde se encontrava tendo ficado gravemente ferido.”
Em 1977, o regime está  seguro, mas a presença de pessoas, ainda influentes no meio social, que em 74, não aceitaram o PAIGC e não se exilaram, deu-lhe o perfeito pretexto para aterrorizar toda uma camada social que ele via, por razões meramente ideológicas, com desconfiança. A consolidação do poder, pela neutralização do que considerava uma oposição embrionária, tinha em vista, também, não deixar flanco, quando o conflito latente com os jovens dirigentes se deflagrasse, o que viria a acontecer em 1979.
O Primeiro-ministro, Pedro Pires, por coincidência em visita oficial à ilha de São Vicente, aquando das prisões, referindo-se às pretensas acções dos “terroristas mindelenses”: ”Não chego a mesmo a perceber o que é que eles queriam, como é que eles pretendiam agir, mesmo que contassem com uma intervenção do exterior. Noutro aspecto penso que é preciso que se note que nós não queremos nem estamos a trabalhar para instaurar um regime burguês nem uma justiça burguesa. Vão ser tomadas todas as medidas para que os culpados sejam exemplarmente castigados; com certeza terão direito a defesa, com certeza, como cidadãos terão direito a se defenderem, a se explicarem... Mas ainda não se pode dizer que eles estejam presos, não se trata ainda de uma prisão. Eles estão detidos para averiguações...”.
Revelando a camada social visada com as prisões, o Primeiro-Ministro diz “...nessa fase da reforma, o colonialismo quis criar os seus agentes e a tendência é, de facto, criar uma certa burguesia nacional ou uma certa pseudo-intelectualidade nacional. Portanto é, entre esses pseudos, esses agentes, esses frutos do colonialismo, principalmente na fase podre do colonialismo, que vai procurar agentes, o bom africano que compreende e que não está  ligado aos terroristas...”. Os pseudo-burgueses eram os pequenos comerciantes de São Vicente, a certa pseudo-intelectualidade nacional também estava bem identificada: Baltasar Lopes da Silva, que chegou a ser interrogado, mas nunca detido. Sabemos hoje que foi a intervenção do então Presidente da República que evitou a prisão do claridoso. Aristides Pereira confessa que houve uma altura em que esteve tudo preparado para prender Baltasar Lopes da Silva e que foi ele quem pôs um travão a essa intenção, chamando Silvino da Luz para lhe dizer que “isso não podia ser”, anulando assim, por decisão própria, uma resolução que estava para ser tomada para esse dia ou para o dia seguinte. Ainda segundo as memórias do antigo Presidente, havia outros membros da direcção do partido, que não são identificados, que concordavam com o acto, porque acreditavam que Baltasar Lopes poderia estar envolvido com a UCID.

in "Expresso das Ilhas"

terça-feira, 13 de junho de 2017

[10027] - FINALMENTE A LUZ II

De Angola a Cabo Verde

Esta espécie de Golpe de Estado em Angola assustou os dirigentes cabo-verdianos [a maioria dos historiadores contemporâneos concluiu que o que aconteceu em Angola não passou de um levantamento popular que procurava uma alteração da política, sem a intenção de derrubar o governo]. Ora, em Cabo Verde, o Decreto-Lei nº 95/76, de 30 de Outubro, ajustava-se ao tipo de acções projectados para os órgãos de repressão policiais (treinados pela Stasi da RDA, Securitate da Roménia e a polícia de Cuba e URSS) e assegurava a completa liberdade das mesmas.
Com esta lei, a DSOP ficava com as mãos completamente livres para levar a cabo toda a espécie de atropelos e intimidação dos cidadãos, sem preocupação de controlo do poder judicial.
É ao abrigo dessa lei que, 7 meses depois, se iria proceder à prisão de várias pessoas muito conhecidas no meio mindelense. Mas o cenário começara a ser montado antes. Silvino da Luz, Ministro da Defesa e Segurança, no comício do 1º de Maio em São Vicente, denuncia que “...o imperialismo quando traça um plano para a Africa, é para todo o continente africano”, e que encontrava a sua expressão exacta nos “actos terroristas”, planeados para São Vicente e Sto. Antão. Era a noção conspirativa de elementos no estrangeiro e elementos internos unidos num complô de desestabilização.
Agnelo Alves é preso e passa os primeiros dias sem qualquer alimento nem água. A família não sabe o que lhe aconteceu. Sem poder tomar banho e com uma lata de azeite como retrete, só tem acesso aos primeiros cuidados de higiene no dia em que é levado para interrogatório (um banho de três minutos, sem sabão). No antigo quartel de João Ribeiro começa o questionário e as torturas com choques eléctricos, durante horas, até ser retirado em braços da cela. Depois de assinar uma confissão que não lera, passam-se semanas até que a família seja autorizada a levar-lhe comida, mas tinham de chegar até uma certa hora em ponto, ao mínimo atraso e os alimentos eram deitados aos cães. Lembra-se dos outros presos, Lulu Marques, metido numa cela isolado, a gritar durante três dias consecutivos, próximo da loucura. Toi de Forro, igualmente isolado, com um braço e costelas partidas, acabando por morrer porque ninguém o deixou ser visto por um médico.
Manuel Chantre é levado igualmente para João Ribeiro. É questionado sobre a “organização”, o nome do chefe e dos integrantes. Perante o silêncio, é espancado até quase ao desmaio. São-lhe mostrados os panfletos que circularam pelo Mindelo: “Homens do PAIGC regressem para o mato onde a barba é simples resguardo da pele do rosto e não o símbolo da divindade humana. O povo já não vos quer, o povo já não vos tolera mais”. Perante a ameaça de mais sevícias, Manuel Chantre confessa que tinha sido ele a estampar os panfletos e que não havia organização alguma. Isso não satisfaz as autoridades. Os interrogatórios continuam, sempre sem a presença de advogados de defesa ou de escrivães para anotarem as palavras dos presos, mas a máquina de choques eléctricos nunca faltava. Como disse anos mais tarde: “Eu fazia parte de um grupo anti-PAIGC, mas não se tratava de qualquer conjuração ou conspiração para a perpetração de qualquer crime contra a segurança interior ou exterior do Estado, nem de qualquer conspiração que tivesse tomado a forma de associação ilícita ou organização secreta com vista ao incitamento ou execução de qualquer crime”. Manuel Chantre fica preso na Ribeirinha até Janeiro de 1979.
Adelino Leite é preso e deixado incomunicável e sem alimento por dias. Segue depois para interrogatório onde leva choques eléctricos durante horas. A cena repete-se dias depois. Os interrogadores faziam as perguntas e davam as respostas, os interrogados tinham de responder “sim” a tudo. Se negassem, levavam um choque. Fica preso durante oito meses, sem culpa formada e sem julgamento. Quando é libertado, ameaçam-no com o regresso à cadeia se contasse o que lhe tinha acontecido.
Mário Leite é preso e passa os primeiros dias sem direito a água nem comida. Quando se queixa da sede, trazem-lhe água numa lata com fezes (o mesmo procedimento é descrito por outros prisioneiros). Fica preso durante 41 dias, “dias de sofrimento e de maus tratos, que eu não desejo nem ao pior dos inimigos”, como dirá mais tarde.
João da Cruz Lima é preso e fica incomunicável por 45 dias. É interrogado numa sala onde a máquina de choques eléctricos está presente, como um aviso (João da Cruz Lima nunca refere que foi torturado, provavelmente porque estava doente quando foi preso). Feitas as perguntas e dadas as respostas, o inquisidor escrevia-as à sua maneira. “Terminado o interrogatório, feito à maneira deles, sem a presença de um defensor jurídico, foi-me dado um documento para assinar”.
Augusto de Melo conhece as prisões logo a seguir ao 25 de Abril. Como se recusa a aderir a uma greve anunciada pelo PAIGC é preso, levado para o Tarrafal, em Santiago, e mais tarde para Caxias, em Portugal. Libertado nove meses depois, regressa a Cabo Verde só em Janeiro de 1976, e continua a ser vigiado pelo PAIGC. Em 1977 participa, de forma pouco activa, na distribuição de panfletos onde se mostravam contra a unidade Guiné/Cabo Verde (ironicamente, a história dar-lhes-ia razão três anos depois), se opunham à presença de russos e cubanos no arquipélago e aconselhavam o Partido Único a voltar para o mato. É preso e torturado com choques eléctricos durante horas, “nunca na minha vida imaginei sequer que houvesse um desespero igual feito por cabo-verdianos e para cabo-verdianos”. Quando adoece e pede um médico, as autoridades dizem-lhe que só havia médicos cubanos e russos, como tinham escrito nos panfletos que não os queriam, fica sem consulta. Augusto de Melo é libertado em Janeiro de 1979.

in "O Expresso das Ilhas"

quarta-feira, 7 de junho de 2017

[10026 ]- FINALMENTE A LUZ!

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ESTABELECIMENTO PRISIONAL DE S.VICENTE

40 anos de silêncio sobre as prisões e as torturas em São Vicente


Com a devida vénia, irei reproduzir algumas partes desta matéria, que foi desenterrada tarde demais para a esmagadora maioria daqueles que de forma arbitrária, desumana e insensata, se viram privados da sua liberdade e despojados de toda a dignidade!!!

A matéria é relativamente extensa, mas de grande relevância e valor "histórico", pelo que tentarei ser fiel aos textos do autor Jorge Montezinho, todavia, serão publicados em pequenos trechos.

"Prisões, torturas, mortes. Há 40 anos São Vicente sentiu a mão pesada do Partido Único, mas as origens da repressão brutal que sacudiu a ilha estavam a 5.425 quilómetros, em Angola, onde o levantamento popular de Maio de 77 fez soar os alarmes junto dos dirigentes do PAIGC.

Para perceber o que aconteceu em São Vicente temos primeiro de saber o que aconteceu em Angola e comparar as tácticas usadas, porque, logicamente, não se pode comparar a dimensão da repressão. Comecemos então por Angola. Em Outubro de 1976, a 3ª Reunião Plenária do Comité Central do MPLA marca o início do conflito aberto entre o grupo reunido em torno de Nito Alves (Ministro da Administração Interna) e a maioria da direcção política do MPLA. Nito Alves e José Van Dunem são acusados de “fraccionismo” [termo usado também pelo PAIGC, quando procedeu à expulsão dos chamados trotskistas] e por proposta de Van Dunem, é formada uma comissão de inquérito, sob a presidência de José Eduardo dos Santos, para investigar a existência de fraccionismo no MPLA.
O comité decide ainda extinguir o Ministério da Administração Interna, afastando assim Nito Alves do governo. Resolve igualmente fechar o jornal Diário de Luanda e o programa radiofónico Kudibanguela, que seguiam a orientação nitista. A 20 e 21 de Maio de 1977, a Reunião do Comité Central do MPLA decide afastar Nito Alves e José Van Dunem. As conclusões do inquérito sobre a existência de fraccionismo nunca foram tornadas públicas, há duas versões. A de que o inquérito concluiu pela “existência, de facto, do fraccionismo” e a de sobreviventes do 27 de Maio que sustentam que o relatório final da comissão de inquérito era inconclusivo. Durante a reunião, Nito Alves terá contra-atacado e acusado, entre outros, Iko Carreira, ministro da Defesa, pela situação caótica das Forças Armadas e por desviar fundos destinados ao reequipamento militar para contas na Suíça.
Ainda a 21 de Maio, logo a seguir ao encerramento da reunião, Agostinho Neto preside uma assembleia de militantes na Cidadela Desportiva, em Luanda, onde anuncia a decisão do Comité Central, defende os dirigentes atacados por Nito Alves e exorta a uma verdadeira “caçada” aos nitistas: “Peço aos camaradas, activistas do Movimento, membros dos Comités e Grupos de Acção que, de acordo com as decisões tomadas, façam um combate verdadeiro e sério contra todos os fraccionistas que encontrem pelo caminho.” Alguns protestos são reprimidos ainda dentro do estádio. A 23 de Maio, um plenário da 9ª Brigada de Infantaria Motorizada pede a reintegração de Nito Alves e José Van Dunem no Comité Central. A 26, o Comité Central reúne-se novamente para discutir o “fraccionismo”. Como resultado do encontro, é publicada uma longa declaração do Bureau Político lida à noite na rádio por Lúcio Lara. Os “nitistas” são apresentados como “grupelhos de ambiciosos e oportunistas, procurando contestar, sob pretextos diversos, a orientação dos organismos dirigentes, falsificar o conteúdo da linha política do MPLA e lutar pela hegemonia e pelo controlo de toda a organização.”
Na madrugada do dia 27 de Maio, o destacamento feminino da 9ª Brigada, liderado pela Comandante Elvira da Conceição, ataca a cadeia de São Paulo usando um blindado soviético BRDM2. Há um duro combate que se prolonga por horas e no qual há baixas dos dois lados, até que as tropas atacantes saem vitoriosas. Como consequência do assalto, são libertados os presos “nitistas”. Ao início da manhã, a Rádio Nacional é tomada, com o apoio de militares da 9ª brigada, e volta a transmitir o programa radiofónico Kudibanguela, alternando músicas com pronunciamentos. 
Agostinho Neto, do palácio presidencial, telefona para Fidel Castro pedindo a intervenção das tropas cubanas. A resposta não foi dada imediatamente. Entretanto, o locutor da Rádio Nacional convoca uma manifestação para a frente do Palácio da Presidência. Mais tarde, a convocatória é mudada para diante da Rádio Nacional, provavelmente porque blindados cubanos do batalhão presidencial teriam bloqueado os acessos ao palácio. Às 11h30 chegam à Rádio Nacional os blindados cubanos, que receberam ordens de Havana para esmagar a revolta e ficar ao lado de Agostinho Neto. Ao chegarem à praça, disparam sobre a população. Ao início da tarde, reconhecendo que os blindados BRDM não têm qualquer hipótese de enfrentar os tanques cubanos, a 9ª Brigada rende-se.
No dia seguinte, os tanques cubanos arrasam o bairro de Sambizanga, esmagando mais de cem casas. Depois, começa a caça aos jogadores do clube de futebol local, muitos deles ligados a Nito Alves e aos activistas do bairro. Agostinho Neto aparece de novo na televisão e em relação aos líderes da sublevação, usa um tom agressivo e ameaçador: “Alguns daqueles que participaram neste crime já estão presos. Dentro de pouco tempo, nós diremos qual será o destino que será reservado a esses indivíduos. Certamente, não vamos perder muito tempo com julgamentos. Nós vamos ditar uma sentença. Não vamos utilizar o processo habitual, seremos o mais breves possível, para podermos resolver esses problemas e, vamos tomar decisões segundo a lei revolucionária.”
São particularmente atingidas pela repressão as organizações de massas do MPLA (as mulheres, a juventude e os sindicatos), as Forças Armadas (especialmente a 9ª Brigada), a DISA, a Polícia Militar e a Polícia de segurança Pública, a administração pública, os ministérios. E, também, os estudantes e intelectuais: na Huíla, o principal dirigente político manda prender todos os que tinham concluído a 5ª classe do ensino oficial, considerando-os “inimigos de classe”.
O Jornal de Angola, a rádio e a televisão instilam o ódio e a violência. O Jornal de Angola publica editoriais intitulados: “Não pode haver tolerância com os fraccionistas”, “Encontrá-los e prendê-los”, “Vingar os heróis, Fuzilar os fraccionistas”. Anuncia, ainda, que os presos começaram a “confessar” a sua ligação ao estrangeiro. Em Junho, nos primeiros dias do mês, são fuziladas centenas de pessoas acusadas de “fraccionismo” nas províncias. A 19 do mesmo mês, o Jornal de Angola anuncia que foram detidos “os criminosos Zé Van-Dúnem e Sita Valles” (mulher de Van Dúnem, angolana de origem goesa) e a 7 de Julho o Ministério da Defesa comunica a prisão de Nito Alves, na região de Piri. São todos fuzilados. No total, as várias fontes apontam para um total de trinta mil mortos na consequência do 27 de Maio."

in " O Expresso das Ilhas"

quinta-feira, 1 de junho de 2017

[10025]- FARIAS HOJE 83 ANOS!


Meu Velho!

Farias hoje 83 anos, digo-te que continuas inevitavelmente intacto nos nossos corações, nas nossas memórias e em muito dos hábitos e saberes que cultivaste em nós e nas terras por onde passaste e nas pessoas que tocaste.
Já não te podemos brindar com a mais clássica das canções, que desde menino te cantavam, e que vinha bem a calhar neste que será sempre o teu dia, e que também o é de todos os meninos do mundo!
As palavras arrumadas a preceito e de rima fácil, o tom em crescendo, numa frenética espiral, perderam o significado... brinda-nos tu com uma das tuas mornas preferidas...essa com certeza, conterá palavras intemporais... que nos apaziguarão a alma!

Braça muito pertod de tude gente pa bô Zito! 

LINK: https://www.youtube.com/watch?v=QSVgmRXEi5c

segunda-feira, 3 de abril de 2017

[10024] - A BRINCAR!...

Cabo Verde toca à campainha. “O Reino Unido saiu? Nós entramos”

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Ao som de Césaria Évora, o primeiro-ministro de Cabo Verde foi chamado a falar num evento do Congresso do PPE, na inciativa EPP Talks, em La Valeta, Malta. “Quem mostra bo es caminho longe?”, ouvia-se nas colunas enquanto Ulisses Correia e Silva se acomodava para falar. Em tom de brincadeira, conquistava pouco depois a sala repleta de europeístas: “Sei que é um dia triste para a Europa, porque o Reino Unido saiu, mas não seja por isso, nós entramos. Estamos in.” Cabo Verde é um país africano e por isso houve sorrisos por toda a sala, mas nem tudo é brincadeira: em breve, até euros vão poder circular em Cabo Verde.
Ulisses Correia e Silva falou em português, já que, com humildade, reconhecia não ter o suficiente domínio do Inglês para se exprimir da forma que queria. Humildade redobrada: foi o ministro dos Negócios Estrangeiros, Luis Filipe Tavares, que foi fazendo a tradução, num tom profissional. Antes disso, Ulisses Correia e Silva ainda falou um pouco em inglês, mais uma vez captando a atenção da assistência, lembrando que dizem que todos os cabo-verdianos tocam um instrumento. It’s true. I play guitar. Luís [apontando para o ministro] play’s doors bells“. (“É verdade. Eu toco guitarra, o Luís toca às campainhas”).
Falando mais a sério, já fora da conferência, o primeiro-ministro de Cabo Verde lembra ao Observador que o país tem “há já algum tempo uma boa parceria com a União Europeia, construindo várias pontes“. E explica: “Começámos em 1998 com o PEC fixo do escudo em relação ao Euro, reconhecido pelo Ecofin, reduzimos ou eliminámos os riscos cambiais de transações com a Europa. Vamos implementar um programa de supressão de vistos para cidadãos da União Europeia. E temos um projeto de circulação do euro na economia cabo-verdiana. Vai-se suprimir assim mais uma barreira que é a da circulação monetária.”
Ulisses Correia e Silva diz, assim, que está “pronto para o in: é evidentemente que não somos um país europeu, e reconhecemos isso, mas as relações entre Cabo Verde e a União Europeia podem ir até onde for possível ir. Relativamente, não só a esta integração de espaços, mas Cabo Verde ter uma utilidade também dentro da região africana em que se insere, quer no domínio da estabilidade, da segurança, da promoção de valores comuns. Portanto, podemos ser úteis nesta ponte entre a Europa e África.”
Ulisses Correia e Silva falou ainda sobre a ida do Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa ao país, entre 8 e 12 de abril: “Cabo Verde vai receber um grande amigo, que não é de hoje, que já foi a Cabo Verde várias vezes. Que tem relações muito estreitas. Vai ser um grande momento também da diplomacia e do estreitamento das relações ao mais alto nível, através do Presidente da República”.
O primeiro-ministro de Cabo Verde explicou ainda que o facto de ser presidente do MpD (Movimento para a Democracia), que é o partido homólogo do PSD naquele país, não afeta as relações com o atual Governo socialista de António Costa. Ulisses Correia e Silva destaca que “as relações são de Estado entre os Governos. O PSD e o CDS fazem parte da nossa família política, o PS tem também a sua família política. Temos boas relações institucionais, quer com o PSD, quer com o PS.Tranquilo. Nós fazemos a democracia funcionar quer do lado de Cabo Verde, quer do lado de Portugal.”
Texto de Rui Pedro Antunes 
in O OBSERVADOR

terça-feira, 28 de março de 2017

[10023] - CENTENÁRIO

A NOTÍCIA QUE ZITO AZEVEDO FARIA QUESTÃO DE DAR!
Comemora-se este ano o Centenário da criação, em S. Vicente, do Liceu Nacional de Cabo Verde, inaugurado a 19 de Novembro de 1917.
Com a fundação do Liceu em Mindelo, iniciou-se uma importante etapa do desenvolvimento cultural, não só da ilha como também de toda a colónia, com impacto decisivo na consciencialização identitária e na transformação da sociedade cabo-verdiana.
A criação do Liceu deveu-se em grande parte à luta desenvolvida pelas elites cabo-verdianas imbuídas dos novos ideais republicanos e progressistas do início do século XX no sentido de elevar o nível cultural do povo. Ela representou uma conquista importante para os que, conscientes da exiguidade dos recursos naturais para assegurar a sobrevivência das populações, como atestavam as terríveis fomes que ciclicamente dizimavam a população, viam na valorização do homem cabo-verdiano a melhor aposta para enfrentar as adversidades da Natureza e da História.
Nessa luta destacaram-se figuras ilustres da história cabo-verdiana, designadamente Eugénio Tavares, Pedro Cardoso, Luís Loff Vasconcelos e Augusto Vera-Cruz. Este último, enquanto senador eleito para representar a Colónia em Lisboa, foi sem dúvida quem mais pugnou para que se abrisse uma escola secundária em Cabo Verde. Não só os seus esforços culminaram com a decisão de se criar o Liceu Nacional em S. Vicente em 1917, como cedeu a sua própria residência – o actual Centro Nacional de Artesanato - para nele funcionar esse estabelecimento de ensino.
A história do Liceu em S. Vicente não é apenas a de um mero estabelecimento de ensino secundário. Tendo sido, desde a sua fundação até 1960, o único liceu existente em Cabo Verde, a sua existência explica, em grande parte, a notável actividade cultural que caracteriza a vida da cidade do Mindelo, assim como o ambiente propício ao nascimento e intercâmbio de novas ideias com vista ao desenvolvimento social.
Inicialmente denominado Infante D. Henrique, depois, Gil Eanes, e, a partir de 1975, Ludgero Lima, o Liceu abriu caminho a uma intensa actividade intelectual espelhada não só no surgimento de movimentos literários protagonizados por personalidades que de uma maneira ou de outra se encontravam ligadas a esse estabelecimento de ensino, como também por variada actividade cultural, desportiva e cívica envolvendo professores e estudantes dessa instituição de ensino.
Várias iniciativas e acontecimentos com origem no liceu tiveram repercussão importante na vida nacional. Pelo Liceu, com as suas diferentes denominações, transitaram gerações de cabo-verdianos que moldaram a configuração do Cabo Verde de hoje, seja a geração dos claridosos, seja a geração que abraçou e promoveu o ideário da independência nacional ou, mais recentemente, a dos jovens estudantes da primeira metade da década de 70, que contribuíram de maneira decisiva para o triunfo do ideal independentista e a consolidação do jovem Estado de Cabo Verde.
Para assinalar o centenário do Liceu de São Vicente e lembrar o legado que a sua existência representa para a Nação cabo-verdiana, um grupo de antigos alunos decidiu organizar um programa de celebrações que pretende incluir um colóquio internacional, exposições, entrevistas e programas radiofónicos e televisivos, assim como estimular actividades diversas (culturais e desportivas) nos estabelecimentos de ensino secundário e universitário que hoje continuam o esforço iniciado em 1917 no sentido da valorização integral da mulher e do homem cabo-verdianos.
Brevemente será apresentado o programa definitivo das comemorações para as quais desde já solicitamos os necessários apoios e a colaboração das entidades oficiais, privadas, estabelecimentos de ensino secundário de São Vicente, actuais e ex-alunos e professores e da sociedade civil mindelense em geral.
A Comissão Organizadora

quarta-feira, 15 de março de 2017

[10022] - CABO VERDE 1977


SOB A BATUTA DO PAIGC

Em breve iniciarei esta crónica, que estava há algumas semanas a burilar com o meu "velho", quando fomos subitamente interrompidos.

Apesar de, infelizmente, não termos tido todo o tempo que desejávamos, e que pensávamos dispor, ficaram registadas para a posteridade partes de uma história que necessitava há muito, e no mínimo, de um contraditório.

Esta será a versão, na primeira pessoa (e não só!), da história que envolveu a inacreditável expulsão de Zito Azevedo, da terra que sempre amou ... Cabo Verde!

Braça,

Paulo Azevedo

segunda-feira, 13 de março de 2017

[10021] CAMBRA DE SONCENT

Carta aberta a Senhor Presidente de CAMBRA DE SONCENT.

Por: Arlindo Tchoff Miranda

Senhor presidente Gust antes de mas nada i embora mi n´ê religioso um ta dsejá que Nossa Senhora da Luz ta lumnhá bocê camim. N´ê precise bocê fcá preocupod porque au contrar de Electra ela ca ta cortá luz nem cobrá taxa de religação. 
Na bocê primer mandat, quer dzer quel lá era de Zau i bocê otchal na tchom i durante segundo quase tud dia i tud ora bocê tava businá gent na uvid que Soncent tava infront purque guvern central de José Maria Neves tava ta sufocá ess ilha i sis habitant. One passod bocê cabá de ganhá ileição primer cosa que sai de bocê boca ê que agora era diferente purque CAMBRA ma guvern tava ta bem fazê parceria i SONCENT tava ta bai pa se lugar quel ta merecê. Como ca pudia tchá de ser quase tud gent fcá naquel xpetativa: JÁ PSÚ Ê AGORA QUE SONCENT TA BAI PA FRENT purque pa primera vez ess ilha tava ta bem tem um guvern local de mesm côr piulitca que guvern central. 
Acontece que pa xpont de maioria de gent dess ilha qrida senhor president de CA;MBRA vrá um moreia, ô seja el infiá num broq i quase ninguém ca ta oila nem uvil. Li bem um ministra que dzê que Cab Verd n´era sô Soncent i que ess ilha tava ta mextê um travão purque el tava cum dsenvolviment mut solerrod (SONCENT Ê SAB SAB PA CAGÁ). Na altura um tchegá te pensá que tinha sid um lapse labial dess ministra ma afinal era prop o que tava ta bai na alma de guvern central,(5º lugar na distribuissão de bolo estatal) i bocê continuá remitid na um ensurdecedor silêncio. Go turdia na TEVEC un uvi bocê ta falá daquel prublema de esgoto na Lazareto i cond bocê levantá voz contra guvern anterior por cosa dess prublema um dzê boa, nô ca ta na Páscoa ma Gust já ressuscitá. Ma como ca pudia ser diferent um tive que tchegá a conclusão que era só ferva de lata, falá mal de guvern anterior ê fácil agora infrentá ess atual ê cumplicod i podê te dá prucess disciplinar a nível de partido nera senhor presidente de CAMBRA? 
Pa carnaval senhor ministro exterminador de cultura injetá um dnhirim pa jdá grupos de Soncent ma quase es pensá que li no ta vivê ê sô de carnaval ma festival embora um ministro de bzôt na idos anos 90 i na qualidade de conhecedor nato de soncent tinha dzid que cultura de Soncent tava resumi a grog i pex frit.
Agora na tchtribuissom dess bolo quê orçamento geral de xtod SONCENT fcá na quinto lugar (cuitod el ca pude nem apurá pa play-off de liga europa, el ta pior du que nhe Sporting). 
Senhor Presidente de CAMBRA DE SONCENT, não foi ninhum partido pulitq que votá na bocê pa guverná Soncent, Foi maioria de eleitores dess ilha qrida i bnita que dá bocê ess puder portant ta na ora de bocê sai de broq i moda nôs tud na qualidad de herder de CAPITÃO AMBRÓZIO bocê tmá diantera de luta que nô tem que bem travá ma guvern central (atual i vindouro) purque cosa ti ta bem vrá fei fei fei... Se bocê trá polpa daquel cadera lá na CAMBRA i bocê sai pa rua (nada de rua de lisboa i praça nova), se bai pa fralda i comp) se ta podê constatá col quel tristeza i dsilusão que ti ta bai na alma dess povo. Se ca for fet nada urgentement perceme que loreta ta bem sentá pel i tcheu gent ti ta bem bem sofré i se cuidod que julgament de povo ê lixod imbarda purque justiça de pov ê mas ceg du que justiça de tribunal.
VIVA SONCENT, VIVA CAPITÃO AMBRÓZIO, VIVA CAB VERDE.

(Esperando que o amigo Arlindo Tchoff Miranda, não de importe com a partilha desta deliciosa sátira)

domingo, 12 de março de 2017

[10020] - E TUDO COMEÇOU NA DJABRABA!

ILHA BRAVA, AO FUNDO A MAJESTOSA ILHA DO FOGO (foto wikipedia)

De terras de Vera Cruz, a colaboradora e amiga do AcA Nouredini, enviou este belíssimo texto, que muito agradecemos e partilhamos convosco...


"Quando pensamos que o brava significa "valente ou destemida" vemos o quão apropriado é o nome dado a Ilha de Brava. Sua história e estórias não fogem a esta qualificação. Somadas as questões de bravura, a ilha carrega um significado de história de amor duradora e valente.
Como não existem acasos nesta vida, foi em Brava que Zito encontrou sua Maiúca, sua companheira amada, mãe dos seus filhos, que com ele dividiu alegrias, tristezas e responsabilidades, principalmente nos duros e injustos momentos vividos em Cabo Verde.
Um amor assim duradouro resistiu a percalços econômicos, políticos e de saúde. O princípio sempre foi o de quem estava bem, cuidava do outro até o final. Também há que se contabilizar as muitas alegrias compartilhadas, os sorrisos dos filhos e a chegada de netos. Não os conheço de perto em sua intimidade, mas a julgar pelo bom humor que Zito sempre demonstrou, suponho e até garanto, que se devia a vida harmoniosa ao lado de sua amada.
Em 2013 escrevi que só os felizes de verdade comemoram as bodas intermediárias. Salvo estes, os demais comemoram por pura formalidade e preferem as datas conhecidas e consagradas dos 25 e 50 anos de casados. As datas quebradas são invariavelmente esquecidas ou guardadas como uma poupança para uma festa maior, num disfarce de que não se está feliz de todo. Naquela oportunidade, eles completavam 56 anos de casados e 60 juntos.
Pergunto-me o que é maior senão o dia-a-dia? O que é maior que a vontade de casar, ao ponto de casar-se por procuração? O que é maior do que dizer sim e ao final da cerimônia não beijar o marido? Eles teceram com bravura por mais de 60 anos este amor e ainda encontravam riscos, pontos e bordados com o mesmo encanto do seu enxoval e renovava os votos nos bons e charmosos almoços de domingo a dois.
A vida para eles sempre foi simples como o amor verdadeiro: -  ela a Maiúca de Zito e ele o Zito de Maiúca, não importando por quanto tempo.
O amor é eterno e sempre estarão juntos e firmes como a ilha de Brava que só floresceu e frutificou e marcou gerações com sua história.
Votos de harmonia."

Heide Oliveira – Nouredini


“ Avida só está disponível no momento presente”  -- Budha 

sexta-feira, 10 de março de 2017

[10019] - RECORTES

Algures perdido numa gaveta, a minha irmã Paula encontrou este pedacinho de papel, com um lamento na forma de uma singela e sentida quadra, de autoria de meu pai e datada de 17 de Outubro de 2003...

Partilhamos convosco!



(COLABORAÇÃO PAULA AZEVEDO)

quarta-feira, 8 de março de 2017

[10018] - A REGIONALIZAÇÃO

Arsénio Pina
CARTA ABERTA AO GRUPO DE REFLEXÃO PARA A REGIONALIZAÇÃO

                Face à relativa passividade do Grupo de Reflexão para a Regionalização de Cabo Verde e sua tendência em defender, ou não criticar abertamente e com independência, as hesitações partidárias, sendo uma organização apartidária, permito-me tentar esclarecer alguns pontos e sugerir abordagens que presumo de interesse para o Grupo, cujos elementos conheço por ter participado de reuniões aquando das minhas deslocações a S. Vicente, a fim de o Grupo poder ser mais acutilante e produtivo. Começarei por aspectos gerais antes de abordar questões particulares.
Antigamente, os intelectuais eram chamados letrados, termo mais neutro, que não irrita tanto aqueles que fazem pouco uso da inteligência, da razão. É evidente que as pessoas, quanto mais lêem, mais problemas levantam, podendo tornar-se incómodas, sobretudo para o Poder. Este, quando pouco ou nada democrático, considera a necessidade de informação correcta e detalhada exigida pelos cidadãos, ou por militantes no caso de partidos políticos carregados de dogmas, “mórbida curiosidade de intelectual burguês”. Em relação a certos partidos políticos – tivemos experiências disso – a liberdade é antiliberdade porque não inclui senão a liberdade de concordar. Insistir nos problemas por solucionar, voltar às dúvidas por esclarecer, é um desrespeito do individualismo. É bom de ver que isso é típico de Estado centralizador, vertical, dominador e absoluto que não o põe ao alcance e à altura dos cidadãos, uma modalidade de poder político e de Estado inteiramente oposta à democrática, típica de partidos com uma concepção antidemocrática e vanguardista do poder, quando o Estado deve ser pertença de cada cidadão.
É evidente que quem lê – é pena haver cada vez menos gente a ler, preferindo a net e a TV, que não substituem livros – encontra, sem querer, ou busca, deliberadamente, informação verdadeira, satisfatória ou completa. Sem informação capaz de permitir a cada um assumir uma posição, formular um juízo seu com suficiente conhecimento de causa, tudo o mais será minado pela raiz e condenado ao insucesso, como bem escreveu um contemporâneo dos tempos de Coimbra (J.A. Silva Marques). Sem informação verdadeira e completa não pode haver participação esclarecida, que algumas vezes nos pedem, hipocritamente, os governos, para levar à discussão, o motor das ideias susceptíveis de nos conduzir ao progresso, ultrapassando os egoísmos pessoais e partidários.
Creio que os amigos do Grupo entendem e sentem o que venho escrevendo por terem vivido, como eu, duas situações de limitação drástica de liberdade e de deturpação da informação, a colonial, com o fascismo, e o início da independência, devido ao sistema de partido único. A época do MpD iniciou-se com eliminação dessas limitações e teria demorado muito mais tempo se não tivesse cometido erros perfeitamente evitáveis descritos noutra ocasião.
Foi Gramsci quem afirmou, “só a verdade é revolucionária” (em tempos escrevi, erradamente, que tinha sido Lenine a dizer tal), mas, como esclareceu o comunista português do Comité Central do PCP, Carlos Brito, “tudo depende. A verdade só é revolucionária se for a verdade do nosso Partido, porque essa é que é a verdade”. Como se pode constatar, os comunistas que seguiam, e ainda seguem, a linha estalinista (actualmente, talvez somente o português) atêem-se a dogmas. Rosa Luxemburgo, judia polaca, a única marxista que fez frente a posições de Lenine, teria afirmado: “A liberdade apenas para os partidários do governo, apenas para os membros dum partido – por mais volumosos que sejam estes – não é liberdade. A liberdade é sempre, pelo menos, a liberdade daquele que pensa de modo diferente”. Claro que para os comunistas ortodoxos e os dirigentes de partidos únicos, essa liberdade é idolatria pequeno-burguesa dos valores burgueses da democracia. Como afirmaram Bernard-Henri Lévy e Mário Vargas Losa, não existem ditaduras de esquerda e de direita, existe tão-simplesmente o horror da tirania.
O capitalismo, face ao comunismo, para sobreviver, teve de evoluir para a social-democracia, que comporta o social e o colectivo, sem castrar o indivíduo, mas o comunismo, que podia ter-se contentado – “regredido”, na opinião dos comunistas – com o socialismo de rostro humano, não o fez por ser uma religião respeitadora dos seus dogmas, verdades últimas dos livros sagrados, que não podem ser alterados nem adaptados ou modernizados às novas condições do mundo, o que levou à sua implosão na URSS, desmistificando a bela canção interpretada por Gilbert Becaud, Natalie: “Aprés le tombeau de Lenine/on irait ao Café Pouchkine/ boire un chocolat …”, que confortou tantos militantes comunistas e simpatizantes.
Não se depreenda destas linhas que pretendo identificar o PAIGC/CV com um partido comunista totalitário, mas que se inspirou no marxismo-leninismo, não restam dúvidas, limitado um pouco pela tradição civilista, democrática e de associativismo social, mesmo incipiente, do cabo-verdiano, adquirida através da emigração, contacto com outros povos no exterior, no Porto Grande de S. Vicente e ilustrado pelo Seminário-liceu de S. Nicolau, o Liceu Gil Eanes e o de Adriano Moreira, realidades graças a mecenas nacionais, respectivamente o Dr. Júlio Dias, Senador Vera Cruz e o ex-ministro português Professor Adriano Moreira, que cederam, os dois primeiros, as suas residências para alojar esses benefícios para o país. O PAIGC/CV, infelizmente, utilizou uma linguagem monocórdica, categórica de infalibilidade semelhante à papal, discussão hermética ao nível dos quadros superiores do Partido sem ir ao tutano dos problemas e sem aceitar as sugestões e propostas dos que não eram militantes, mesmo sendo simpatizantes. Sendo o partido único moda na época da implantação da independência, foi aceite com poucas resistências e serviu bem, como afirmou alguém, para arrumar a casa e evitar a confusão política que reinou em Portugal, tendo, no entanto, durado tempo demasiado como partido único, de pensamento único, quando, em verdade, o Estado é dos cidadãos da República, não propriedade privada dos partidos políticos.
Do Estado-providência, que obteve vitórias significativas inegáveis a nível da saúde, educação e desenvolvimento socio-económico, passou-se, sem transição nem cautelas recomendadas pelo bom senso, para a economia de mercado e globalização sem regulação financeira nem económica, instituídas pelo neoliberalismo, o que levou ao enfraquecimento do Estado-nação, o qual perdeu o controlo da economia permitindo a vadiagem do capital e a imposição de instituições que tentam orientar a economia (FMI, OMC, etc.) com confiscação parcial da política pelos peritos mundiais do neoliberalismo, política que deixou de controlar a economia e finanças e deu, como resultado, o que sabemos – uma crise económica e financeira de todo o tamanho - e ainda vivemos.
Referi-me à vossa relativa passividade, acrescento fé, na promessa do novo Governo em implantar a descentralização e regionalização, o que não é recomendável, por a fé ser admissível em religião, onde se admitem milagres, não em política. Não há que baixar a guarda. Todas as cautelas são poucas, dado que, geralmente, à mínima distracção passam-nos (os do Governo) rasteiras. Há que ser vigilantes, porque, por exemplo, relativamente à educação universitária, mormente na privada, constatamos que estão a formar licenciados para profissões inexistentes, ou que já não existem no país. Afinal - noutro aspecto - somos nós que damos cabo do património nacional pela cupidez dos promotores que quiseram construir no local de implantação de um património nacional um hotel ou um casino, como se fosse em plena Ribeira de Julião, Achada de S. Filipe ou em Campanas de Baixo, como se houvesse um apuro especial estético e de bom senso dos arquitetos. Digo nós, porque deixámos que aqueles que têm o dever legal de preservar a memória e integridade da cidade, os decisores, fizessem - e continuam a fazer - essas asnidades criminosas sem nos opormos, utilizando manifestações de rua de protesto, ou mesmo a força como último recurso.
A alternativa a esse estado de coisas, pelo menos para nós, cabo-verdianos, ainda vítimas do centralismo, é uma evolução decididamente descentralizadora, simultaneamente atenta à solidariedade entre as diferentes ilhas. As regiões, pela estratégia defendida pela regionalização, beneficiando da transferência de competências importantes, iriam impondo-se como instituição chefe-de-fila entre outras colectividades. O Estado, garante da unidade da República em cada uma das novas regiões, terá representação em cada uma das regiões, com a finalidade da regulação e controlo efectivo das políticas de desenvolvimento, de execução das competências delegadas e de normalização na aplicação das normas judiciais do Estado. Os falsos democratas e verdadeiros demagogos que invocaram, ou invocam o sufrágio da rua sem discussão prévia e manipularam, ou podem vir a manipular habilmente a opinião pública para servir as suas ambições pessoais e partidárias, preferem manter-se no centralismo, escorados na burocracia excelentíssima para se pouparem a esforços e ao debate, em vez de criar a proximidade entre os serviços do Estado e dos cidadãos seus utentes.
É óbvio que este processo de descentralização e regionalização será longo, por ser um conjunto de compromissos e de adaptação entre o Estado - uma entidade integradora em nome de um interesse comum – e as regiões. Se houver coragem e rasgo da parte do actual Governo, será uma oportunidade única do MpD para colocar nas mãos do povo uma decisão histórica – que o PAICV não quis colocar -, ganhando assim uma imprescindível autoridade democrática para inverter o rumo para o abismo em que estamos em vias de nos precipitarmos.
Lançada esta semente à terra, que é fértil por ser de gente letrada e conhecedora da realidade do país, espero que germine e frutifique.

Parede, Março de 2017                                                                     Arsénio Fermino de Pina

                                                                                                     

terça-feira, 7 de março de 2017

[10017] - A DESCOBERTA DA MORABEZA

Aversão   / Adoração

É mais fácil de escrever, soletrar e sentir. Três sílabas de indisposição, ódio, azedume, raiva, o que quer que seja. Aversão!...
Sem recorrer a qualquer tipo de estudo certificado, posso afiançar que este vocábulo do demo está muito mais presente nas nossas vidas do que a sua vizinha do outro lado da barra. Mefisto é “barra pesada”,  como dirão os amigos do outro lado do oceano, e tudo o que lhe está associado conduz a “palavras primas” de Aver_ _ _!
Mas Aver___ conduz a sensações positivas, bem como “são” !
Analepse. Aversão! Eu tinha aversão a Cabo Verde como possível destino de férias! Ui, o que eu acabei de proferir neste blog da terra árida de caras fechadas!
Atenção ao tempo do verbo “ter” e à inexistência de vírgula entre o adjectivo “árida” e o complemento!
2009 foi o ano da mudança, em que a Aversão se “basaltificou”, e fiquei  “a ver” a Adoração fluir. E que fruição foi! Foi, não, ainda é!... São assim os sentimentos duradouros.
Por obra de Deus, Palma de Maiorca deixou de ser opção de férias (“bendito” vírus H1N1! Salvo erro,  era esta a variante que afectava Palma na altura) e eis que surge a alternativa … CV (Coração Vivo)!
POIS, SAÍ DE LÁ, que ainda é cá (sinto cá dentro!), COM O CORAÇÃO VIVO!
Saí de lá sem aridez de sentimentos, que levei comigo, teimando que voltariam. Os sorrisos de nada, contra as minhas trombas de tudo, levantaram a minha “poeira”, pior que quando vento sopra no vulcão do Fogo…         
Queimava-me com a minha indiferença, a minha aversão ao ser descalço que me olhava de cara aberta.
Saí de lá também descalço e sem camisa, coisa que não fazia desde … sei lá … talvez desde o princípio do meu pequeno mundo!...
Saí de lá aberto à Adoração, como se oração fosse,
De um Deus que tudo me deu,
E que à sorte, a outros, apenas permitiu dizer adeus!
Sensações positivas de gente sem nada,
Que, contudo, tudo fizeram para que me sentisse com Tudo.

Para mim, era o Cabo do Medo,
Do receio de sair à rua no primeiro dia,
Lembrando a pobreza de Angola,
Reminiscências de estrondos de bomba,
Em cabeça de criança assustada no adulto frustado.

Saí de lá, para voltar a entrar, qualquer dia, novo.
A lavagem foi mérito deles.
Eu só fui!...

+1 Braça do Angolano António Rebelo

(agora do lado bom da barra! J ) 

(COLABORAÇÃO ANTÓNIO REBELO)